Jayme Maurício
ALBERTO NICOLAU: O REJUVENECIMENTO DE TRADIÇÕES
Foi sobretudo a juventude que, em tempos contemporâneos, rebelou-se contra um acúmulo de costumes e valores de diversas espécies que haviam sofrido um processo de enrijecimento tornado-se obsoletos. A necessidade de protesto, de renovação e de revisão tornou-se tão urgente que, como de roldão, atingiu também hábitos e visões artísticas de saudável legitimidade. O jovem, com o seu ímpeto habitual, muitas vezes recusa-se a aceitar discriminações que seriam bem justas, mas que ele não tem ainda a energia pacífica para analisar. Este não parece ter sido o caso do jovem pintor Alberto Nicolau.
Integrado com o que há de mais autêntico na atitude comportamental independente dos jovens de hoje. Alberto Nicolau compreendeu que a arte e cultura são processos que muito devem a descobertas e hábitos do passado recente ou remoto. Sua formação mesmo, entre a pintura e música, reflete a natural ambivalência ou hesitação do jovem de todos os tempos. Deixando sua cidade natal, Belém do Pará, após um aprendizado artístico precoce iniciado aos 10 anos, vai estudar e praticar em Paris e alí, alterna sua atenção entre a música e pintura.
Dedica-se à interpretação pianística de obras clássicas e passa a frequentar coleções e atelieres de pintura, cada vez com maior freqüência. E acaba por fazer sua real opção pela pintura. Mas seu contato íntimo com a sonoridade musical já penetrara toda a sua personalidade; e passa então a trabalhar na tela como um teclado de piano, por assim dizer: o pincel, como uma “extensão” dos dedos - no sentido consagrado por Mc Luhan.
Desse modo, faz sua pintura musical, toda ela vibrante de cor,acentuada pelos vermelhos quentes, como vibrante de sons são as cordas de seu piano - presença direta e visual também em alguns de seus trabalhos pictóricos.
Deve mesmo ter sido através de sua atração pela música e pela sonoridade ambiental que ela sugere, que Alberto Nicolau redescobriu de maneira muito pessoal, alguns dos grandes pintores franceses da virada do século.
A pintura de interiores, onde tramas sensuais de paixões, descritas também de maneira notável pelos grandes romancistas de época, é a pintura escolhida pelo jovem pintor, como se viu recentemente na “Realidade”. Às vezes, como se tivesse a colaboração de uma telefoto tipo zoom, o ambiente interior como um todo se retrai, para proporcionar a ampliação maior de um detalhe - com grande freqüência, o vaso de flores. Mas o detalhe sugere o todo; a trama novelística de afetividade em confronto dirige a vibração do detalhe focalizado, resume complexos estados de espírito - e excita a imaginação.
A literatura é também uma presença enriquecedora na pintura de Alberto Nicolau.
Numa época em que a busca de novidade a qualquer preço tende a academizar de maneira alarmante, estabelecendo mesmo uma situação de tradicionalismo precoce, a consulta atenta à obra de grandes pintores que há apenas relativamente poucas décadas inovam também, pode constituir mesmo uma atitude independente e saudável. Foi por uma tal atitude que Alberto Nicolau optou. Não deseja ser um inovador a qualquer preço: prefere trilhar caminhos
que certamente já foram explorados com sucesso, mas que nem por isso tiveram seus potenciais exauridos - caminho promissores ainda para quem se dedicar à redescoberta e à exploração renovada de seu território.
É possível que o contato íntimo com a interpretação de obras todas de compositores clássicos tenha fortalecido a determinação do jovem pintor, de não ceder às tentações da moda; e repudiar a adoção apressada de modalidades de produção artísticas que, no momento, encontram divulgação de maneira relativamente fácil. Em nossos dias, o convívio com a música pode favorecer tal atitude, posto que esse convívio não se deixou contaminar pela busca da inovação a qualquer preço. Estabeleceu-se, é verdade, um hiato entre interpretação e criação no movimento musical contemporâneo.
Mas por maior que seja o respeito sempre devido à criação legítima de formas renovadoras de arte, torna-se impossível deixar de reconhecer a surpreendente vitalidade revelada na interpretação muito freqüente dos grandes clássicos, ou dos mestres da invenção musical na primeira metade do nosso século.
Não deve ter sido apenas vibração e sonoridade que Alberto Nicolau trouxe da música para a pintura, mas também uma posição corajosa e coerente de opção e apreciação da obra de arte. Em Paris, o mundo que o pintor transpõe para suas telas, é um mundo de valores permanentes, atrativos, um mundo que reflete o ser humano sensualmente apegado a ambiente familiares, mas ricos em aventura psicológicas - o mundo da espera afetiva, da projeção da carga sentimental, no sentido forte e estrito do termo, sobre uma variedade de objetos, uso e fruição pessoal, cuja aura, quase palpável, foi conferida pelas tramas muito humanas em torno deles desenroladas.
Jayme Maurício
Rio de Janeiro, outubro de 1988
Wilson Coutinho
Por que as coisas não estão mais lá? Por que o prazer do íntimo tende a se ausentar da rotina e não ocupar mais o espaço da tela? Se faltam as coisas, o mundo despreende-se de sua origem e se a intimidade é desalojada, onde encontrar a quietude? A pintura de Alberto Nicolau redescobre esses recortes perdidos, o pequeno paraíso da fruição individual, que foi a via da humanidade da pintura: as coisas que o homem ama e que pertencem somente a ele.
Daí, a sua estratégia: entender o sentido da tradição numa época em que a origem foi esfacelada.
O olhar do pintor, então devora as coisas sem sêde da novidade, sem manisfestar o desejo de recopiar uma invenção, que não se funda numa percepção direta com o mundo que o cerca. As coisas, com seus brilhos, arestas, texturas e sombras aparecem com fundamento objetivo: estão presentes ao pintor como uma aparição de um fenômeno em êxtase. Este mundo acaba por ser tão acrítico como o de Matisse porque isola-se na nudez da coisa: jarros de flores, recantos com piano, garrafas e frutas - coisas que ganham vibração porque restituem ao mundo a alegria de seus objetos.
Eis que a pintura de Alberto Nicolau acentua: os objetos do mundo dão prazer.
A série de naturezas mortas e de vasos de flores são - como toda arte deste gênero-emblemáticas do hedonismo na pintura. Isto significa mais do que arranjos de luxúria, porque motivam ao pintor o exercício da pintura como pintura, a cor, a pincelada larga e forte, o prazer do emaranhar-se em texturas e que servem para revelar a pintura como uma experiência própria.
É certo que o pintor não pode esquecer sua matrizes,mas estas funcionam em planos que se cruzam. A tendência a carregar nas cores sugerem um fauvismo, mas um expressionismo trabalha gerando espaços oblíquos e ambientes e personagens que dão um tom inquietante, mas não ao ponto de desfazer as franjas de sonhos. São quase oníricos estes recantos com o piano, o gato, vasos de flores - mundo de uma placidez prazeirosa que acalmam mais que perturbam, que oferecem mais prazer que reflexão.
Obra cuja musicalidade é sem estridência, embora as cores, por vezes, violentas, amarelos faiscantes, vermelhos vibrantes, azuis fortíssimos possam oferecer a idéia de uma pintura derramada, exclusiva de um Eu excessivo. Ao contrário, Alberto Nicolau faz a sua pintura vibrar mas com um recolhimento acalentador, de onde emerge a auto-biografia de uma intimidade, espaços visualizados por uma individualidade singular.
Assim a pintura intensifica a sua origem primordial. Restaura os objetos que ferem a percepção do pintor e faz com que eles se encaminhem para um olhar individual, restaurando um mundo que dispersou esta experiência, tornando-a praticamente vazia.
Wilson Coutinho 1991
Mário Margutti
A pintura de Alberto Nicolau é música para os olhos. Após ter estudado piano clássico durante quatorze anos, ele transpõe com naturalidade para suas telas a fluidez das escalas cromáticas - no sentido musical dessa expressão.
Seus quadros não se submetem ao figurativismo.
No lugar do desenho, ele instaura ritmos. As formas nascem dos intervalos e das intensidades das cores. O jogo de luz e sombra torna-se pauta de tonalidades "graves" ou "agudas". E os objetos tomados como modelo transformam-se em etéreas "melodias" que dançam soltas pelo ar.
Alberto Nicolau compõe festas para os olhos. Com a leveza lírica de um Mozart, que é o compositor preferido deste jovem pintor paraense, que se radicou em Paris em 1980 e, após ter frequentado a Academia La Grande Chaumiere e ter estudado História da Arte no Louvre, hoje participa do circuito europeu com reconhecimento de público e crítica.
Suas telas são decididamente autobiográficas. Nelas, o pintor recria a intimidade do seu ateliê parisiense, onde o piano reina soberano e as flores motivam diariamente sua vitalidade criadora. Seu grande tema é a "alma" do seu cotidiano, entre móveis eletrizados de vivências, e pinturas na parede que falam da arte dentro da arte, e de espelhos dentro de um espelho central que é o seu olhar de pintor.
Inegavelmente, seus trabalhos têm ressonâncias dos mestres do passado. Não é
difícil perceber "ecos" do hedonismo formal de Matisse, da pupila incandescente de Van Gogh ou dos arrepios líquidos de Bonnard. Mas não há cópia, nem imitação. Existem, isto sim, saudáveis inspirações. De Matisse, ele recolheu a alegria de pintar, o resgate de algo cada vez mais raro em nossa época tão conturbada: a beleza feliz. De Van Gogh, ele carrega a lucidez implacável, o fogo sagrado e solar que tornou-se exemplo imortal de liberdade de expressão.
E Bonnard o impeliu ao combate físico direto com a matéria-prima de criação, essa luta heróica e diária da qual nenhum pintor digno de seu ofício pode abrir mão.
Alberto Nicolau sobrevoa modismo e "vanguardas", para encontrar nas fontes primordiais da pintura um caminho de autenticidade, que devolve aos nossos olhos a plenitude da imagem poética.
Mário Margutti
Rio, agosto/1992
Alexandros Papadopoulos Evremidis
A invasão da Normandia pelos pincéis do menino do dedo verde (e vermelho e azul e amarelo e ...).
©Alexandros Papadopoulos Evremidis*
Pródromo: Olhe só para que incontidas e irreprimíveis reflexões esse rapaz me levou.
Primeiro: Caí de pára-quedas no vernissage e sem nenhuma referência, o que é lamentável e imperdoável, mesmo com o concurso do álibi socrático de sabendo mais, sabe-se menos. Está certo que a "koiné" enxerga apenas a ponta do nariz e se protege na ilusória segurança do mundinho e só muito eventualmente lança o olhar ao horizonte e ao capitólio. Além não passa - não rompe a casca azul, não nasce, não penetra nas insuspeitadas maravilhas (não esquecer de dizer que horrores não há) do infinito. Por medo da distância, do frio, do escuro mais puro, já que o fiat lux lá não chegou? Quem muito estuda e passa, paga o justo preço de, na exata proporção do inversamente proporcional, entender o quão pouco entende e apreende da terrífica e excitante imensidão.
Segundo: Ao chegar ao topo da escada-rolante do Rio Design Leblon e meu olhar bater de frente com as aquelas suas pinturas, na vitrine da Votre (notre? merci!) e nos corredores, senti um ligeiro, porém chocante, tremor - mas o que é isso? intrigado me perguntei e incontinenti e em voz alta exclamei "ninguém mais pinta assim!" E por que não? me provoquei e repliquei: Porque a arte de hoje em dia é (tem que ser?) contestatária. A dialética tréplica me veio como um insight na forma de um tapa nos suportes internos da cara e outro, nos da coroa absolutista: E por acaso, não era contestatário e transgressor e demolidor, em tempos sombrios, como os que estamos vivenciando - na carne viva, imbuída do logos, aqui, em casa, e alhures -, ele atacar de superlativa beleza?!
Terceiro: Fui então, pensando "Temos um francês aqui", peregrinar pelos tableaux e, escandalosamente gemendo de prazer, me deixei subjugar e, em delírio, arrastar por um orgíaco orfismo que transpirava do que me pareceu serem paisagens, construções, habitações, interiores - acidentes e contingências da engenhosidade da natureza e dos humanos. Eu disse "pareceu", porque a sensação que me dominou foi a de que a forma ali, embora familiar e reconhecível, era o de menos, mera, meríssima função da cor - da chuvarada de cores! Mas não aleatórias e tampouco gestuais, "au contraire", equânimes e meticulosas, "presque" cientificamente assentadas no suporte. E ainda assim com toda e passional devoção. Com espontânea liberdade.
Terceiro e 1/2: Sim, amizade, não me constranjo nem contenho em dizer (o que me ocorreu na hora) que esse rapaz sofre de uma anomalia visual que faz com que ele enxergue cor em tudo, melhor, que enxergue todo o mundo objetivo em forma de cor - não importa que seja lama, pedra, árvore, muro, parede, casa, tapete, corrimão, copo, faca, animal, pessoa, para ele tudo são cores. Eu disse cores? Não, corrijo - para ele tudo são multicores flores! Por instantes, imaginei-o como uma borboleta que, onde quer que, além das flores, pousasse, deixasse flores e mais flores. E também foi forçoso, por humanamente inevitável, recordar do menino do dedo verde do Druon que onde apusesse o polegar nasciam flores (na boca dos canhões). Daí a infame piada (?) - a autoridade (ela mesma uma, ainda que espinhenta, florzinha) deveria contratá-lo para acariciar as AR15 dos bandidos - dos assumidos e dos disfarçados fardados. E ainda, quem sabe, enviá-lo para a Judéia e para Gaza (onde a paz no túmulo jaz) e também encarregá-lo de puxar a orelha do Bush, apertar o nariz do Bin, beijar a boca do to be or not to be.
Quarto (e não é de dormir, é de brincar): Brinco com isso, porque aí pelas tantas eu quis saber quem era ele e trocar uma figurinha. Nem precisei me socorrer com a Eliane, a das honras da casa. Ao passear o olhar pela massa dos presentes, quase todos devidamente mastigantes e ruminantes, o The Flash, por parecer um "flesh" em agitada movimentação, deteve meu olhar - olhos brilhantes, rosto afogueado, veloz deslizava pelas diagonais e pelos meándricos interstícios possíveis e abraçava e beijava e posava para retratos, uma palavra amável e gentil para todos que, estava na cara, o amavam e isso era (é, para todos) uma noite de glória! Parecia um menino pela primeira vez (nesses casos, toda vez é a primeira vez) num parque de diversões.
Chega! Falemos com ele (embora nada mais houvesse sobre o que falar). Ficamos então sabendo ser brasileiro morando há alguns anos na Normandia. Ah, bom! E, para não perder o costume, brincamos: "aceitava ele a tachação de ter feito uma pintura francesa?" Entendendo o espírito, entrou na brincadeira - "está certo, a paisagem é francesa, o estilo é francês, mas a cor é brasileira!" - se garantiu orgulhoso. Bem que eu estava desconfiado, mas não o jornalista gaulês que me acompanhava e que se insurgiu - "na França também temos essas cores fortes". Mas não é o forte de vocês, gozei e encerrei o banho de abundante e exuberante cor e de sublime beleza. Invasão por invasão, prefiro esse tipo de invasões. Que venham + e melhor! Bravô, Nicô!
rio de janeiro 2004
© Alexandros Papadopoulos Evremidis é crítico da crítica e avalista de sistemas estéticos.